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Fernandes Braga

sábado, 19 de novembro de 2011

Os escravos do tráfico na Rocinha

Como o traficante Nem usou mais de 200 moradores da favela para comprar produtos químicos usados no refino de cocaína
NELITO FERNANDES, LEOPOLDO MATEUS E HUDSON CORRÊA
SOB OCUPAÇÃO

Um policial (foto maior) revista uma moradia, no primeiro dia da ocupação 
da Rocinha. Edmilson Ribeiro (foto menor) era usado por traficantes na 
produçãode cocaína (Fotos: Fernando Donasci/ÉPOCA)


Edmilson de Oliveira Ribeiro, de 55 anos, mora num barraco de dois cômodos com paredes cheias de mofo no alto da Rocinha. Deficiente mental, ele só sai de casa acompanhado. A família teme que, numa de suas crises, ele se perca pelas ruas. Gari aposentado por invalidez, Edmilson toma 36 comprimidos por dia, de 12 medicamentos diferentes. Há três anos, sua companheira estava internada, e Edmilson precisou ficar sozinho. Aproveitando-se da situação, uma mulher bateu a sua porta e lhe ofereceu R$ 40 para comprar 1 litro de éter no centro da cidade. Para ele, era a chance de provar que ainda podia fazer algum trabalho e ganhar uns trocados. Edmilson acabou denunciado pelo Ministério Público por associação com o tráfico de drogas. Ele diz que não sabia, mas o éter que comprou foi usado para refinar cocaína.



“Bateram aqui e me ofereceram 40 contos para eu fazer um serviço de boy. Não achei nada demais”, diz. Ele foi usado num esquema montado para preparar a droga dentro da Rocinha. Por trás do aliciamento sórdido, estava o traficante Nem, preso na semana passada numa bem-sucedida ação de ocupação da Rocinha pela polícia. Nem e sua quadrilha aliciaram 212 pessoas, quase todas moradoras da favela. Elas foram denunciadas pelo mesmo motivo que o ex-gari Edmilson, de acordo com o processo que tramita na 36ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, a que ÉPOCA teve acesso. Se condenadas, podem pegar de cinco a 15 anos de prisão.

É possível que no grupo muitos soubessem exatamente o que estavam fazendo. Boa parte, porém, provavelmente não fazia ideia ou não teve coragem de negar um pedido do chefão do tráfico no morro. Nem, como todo bandido que comanda áreas empobrecidas, se aproveitava da comunidade. Na ânsia de lucrar mais com seu negócio, não poupava nem mesmo um deficiente mental.


A maioria dos traficantes brasileiros não refina cocaína, compra o pó pronto. Nem logo percebeu que poderia lucrar mais. Segundo o jurista Walter Maierovitch, ao transformar pasta-base de coca em cocaína pura, o lucro com a droga sobe 40%. O refino, porém, traz uma dificuldade adicional: é necessário comprar produtos químicos de venda controlada. Por isso, Nem teve a ideia de recrutar duas centenas de moradores para fazer compras pequenas, que não chamassem a atenção. Os moradores iam semanalmente a uma loja no centro do Rio para comprar éter, acetona, ácidos sulfúrico e clorídrico e álcool P.A., de alto grau de pureza.

O bando de Nem se aproveitava também de mototaxistas que levam e trazem encomendas da Rocinha. Pelo menos 20 foram usados no esquema. Anderson Menezes Alencar, de 27 anos, conta que um desconhecido ofereceu a seus colegas de ponto R$ 40 para buscar produtos no centro do Rio. Sem fazer muitas perguntas e tratando o desconhecido como um cliente qualquer, ele recebeu uma lista com cinco produtos, um cartão com o endereço da loja e R$ 190 – R$ 150 para comprar os produtos e o restante pela corrida. “Quando comecei a ouvir que era ilegal, não fui mais. Nunca imaginei que fosse coisa perigosa.” Depois do episódio, largou o táxi. Hoje, trabalha numa locadora de vídeo, no Jardim Botânico. Assustou-se quando recebeu a visita de um oficial de Justiça, no começo de 2010. “Se soubesse que era para isso, nunca teria feito.”

A estratégia dos traficantes começou a ruir em março de 2009, quando policiais fecharam dois laboratórios de refino de cocaína na Rocinha. A 15ª Delegacia de Polícia Civil passou a investigar a origem dos insumos e o “esquema de formiguinhas para a compra de produtos químicos”. Depois da primeira prisão, a polícia esmiuçou os registros de compra na loja. Da apuração, resultou a denúncia criminal contra os 212 indiciados.

O caso é só mais uma das barbaridades cometidas pela quadrilha de Nem na Rocinha. Quem não dava guarida a bandidos em fuga perdia a casa e tinha de deixar a favela. Surras e execuções eram comuns, e, quanto mais gente visse as atrocidades, melhor – Nem acreditava que isso impunha respeito. “Minha filha tem problemas de tanto ouvir gritos. Eles passavam arrastando as pessoas por aqui”, diz uma moradora. O cantor MC Marquinhos foi assassinado. Por quê? Apenas por ter cantado em uma favela controlada por uma facção rival. O poder de fogo da quadrilha de Nem foi provado com a ocupação da Rocinha: em quatro dias, a polícia apreendeu 132 armas, entre elas 75 fuzis.


VIDA NA ROCINHA
Anderson Alencar (à esq.) disse ter transportado produtos sem 
saber que era ilegal. Evelin Araújo (à dir.) deu à luz na noite 
da chegada da polícia (Foto: Pedro Farina/ÉPOCA e 
Fernando Donasci/ÉPOCA)



Uma semana depois da ocupação da comunidade, o novo “dono do morro” – o Estado – também é fonte de preocupação. As queixas de truculência são poucas, em comparação com a ocupação do Morro do Alemão, mas existem. Um morador afirma que policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) perguntaram por drogas e armas e invadiram o quarto onde sua filha de 8 meses dormia. “Disseram que iam me matar se eu não mostrasse as drogas, mas não tenho nada”, diz. O Bope promete investigar as denúncias.

Com incidência de dengue cinco vezes maior que no resto da cidade, a Rocinha finalmente recebeu a visita de agentes de saúde, antes proibidos pelo traficante de entrar. A Secretaria de Trabalho está montando cursos de capacitação profissional. Com a perspectiva de dias melhores, o preço das casas subiu quase 50%. TV a cabo, antes irregular, agora é oferecida a R$ 50, oficialmente. Guardas municipais apareceram para controlar o caótico trânsito pelas vielas da favela. É nessa nova Rocinha que o recém-nascido Anderson Lucas vai crescer. Sua mãe, Evelin Araújo, de 17 anos, deu à luz no hospital, pouco antes de a polícia começar a subir as escadarias da Rocinha. Evelin diz ainda não ter pensado no que seus filhos farão quando crescer. Um futuro de humilhação, nas mãos de traficantes, ficou mais distante.


Fonte: Época




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